O artista russo Ilya Repin

 

Ilya Repin nasceu em 1844 em Tchougouiev, na Ucrânia. Seu pai era um soldado. Iniciou seus estudos de pintura com um pintor de ícones chamado Bunakov. Em seguida, entrou para a Academia Imperial de Belas Artes de São Petersburgo em 1863, onde estudou até 1871. Entre 1873 e 1876, viajou pela Itália e por Paris, graças a uma bolsa de estudos que havia ganhado na Academia.

Se juntou a uma sociedade de pintores ambulantes, a partir de 1878, que realizavam exposições artísticas ambulantes. Após 1882 se estabeleceu em São Petersburgo, mas fez muitas viagens ao exterior. Conheceu a obra do pintor holandês Rembrandt, que o inspirou muito em seus retratos.

Sobre ele foram escritas inúmeras publicações, desde livros a monografias e centenas de artigos. Ilya Repin é um mundo dentro da pintura russa!

A Rússia em que ele viveu era dominada pelo regime dos czares. Quando Repin nasceu, a Rússia estava sob o domínio do czar Nicolau I, mas em 1894 assumiu o czar Nicolau II que foi deposto pela Revolução Socialista de 1917. A injustiça e a opressão que ele via acontecendo com seu povo, retrato da administração dos czares, lhe incomodava muito e Repin denunciou isso em vários de seus quadros. Movimentos revolucionários pipocavam em toda a Rússia, lutando contra o império czarista. Repin pintou retratos de amigos escritores como Tolstoi, L. Andreeva, Maxime Gorki e V. Garshina, assim como dos artistas P. Strepetovoy e Mussorgsky. Também pintou o retrato do famoso químico Dmitry Mendeleyev.

Um de seus quadros mais conhecidos é “Ivan, o Terrível e seu filho Ivan”.

Repin pintou centenas de quadros e fez milhares de esboços e desenhos. Também escreveu um livro de memórias intitulado “Longe perto”. Nele conta, por exemplo, como fez sua pintura “Os barqueiros do Volga”. Foi em 1868. Ilya Repin era estudante na Academia de Artes e participou de um concurso de pintura sobre a história bíblica com o tema “Jó e seus amigos.” Em um dia agradável de verão, ele e outro artista, K. Savitsky, resolveram ir juntos fazer croquis pelo rio Neva, em um barco de passageiros. Lá, avistaram trabalhadores maltrapilhos puxando um barco com seus corpos amarrados a cordas. Sujos de barro, muitos deles sem camisa, bronzeados pelo sol. Os rostos eram pesados, marcados, onde o suor escorria. Contrastavam muito com os passageiros do barco, especialmente as perfumadas e elegantes senhoras da sociedade. Ilya Repin disse a seu amigo: “Que imagem é esta? Pessoas tratadas como animais!” E disse que essa visão o deixou tão impressionado que não parava de pensar naqueles homens sujos, carregando cargas pesadas sobre a lama. Fez um esboço do que viu, que depois pintou (figura acima).

A imagem chocou a todos, amigos e adversários do artista. Mas para pintá-lo, Repin levou vários anos de trabalho duro, fez duas viagens ao Volga, em contato diário com os trabalhadores. Acabou se tornando amigo desses heróis do seu quadro. Ele conta que trabalhou muito, longas horas em seu ateliê, fazendo esboços.

As primeiras impressões, ao ver aqueles homens cujo rosto expressava sofrimento sob duro esforço, fez com que seus primeiros esboços incluissem o contraste entre eles e as senhoras elegantes do barco no rio Neva. Mas, conforme foi amadurecendo as ideias, acabou por pintar a cena no rio Volga, em um céu de verão, com nuvens luminosas e um banco de areia sob sol quente. Bem no fundo, o navio, onde está o proprietário ou administrador a bordo. No primeiro plano, os barqueiros, tensos, num esforço supremo para puxar o barco, como pode ser visto na última figura à direita. O amarelo da areia, aparece na água e até no azul do céu. Água, céu e areia e 11 pessoas cujo trabalho vale menos do que o de cavalos, disse ele. Repin lembrou de um poeta, Nekrasov, que diz em um de seus poemas: “Vá para o Volga, cujo gemido é ouvido.” O rio Volga é o grande rio russo.

Mas esse artista planeja, numa grande síntese ideológica e criativa, valorizar os onze homens, colocando a linha do horizonte abaixo deles, assim como o Volga e o barco, onde o dono é muito menor que eles. Essa escolha de Repin deu a esse quadro um significado monumental, onde denunciava a situação de miséria e injustiça que vivia o povo sob o comando do império czarista.

Essa tela “Os barqueiros do Volga” colocou Ilya Repin na categoria dos melhores artistas russos. E ele ainda era um estudante… O quadro foi exposto em São Petersburgo, depois em Moscou e em seguida foi para a Exposição Mundial em Viena, Áustria. Esta imagem tornou-se o centro das atenções de toda a sociedade russa e recebeu elogios de diversos setores e círculos de artistas e intelectuais.

Mas o reitor da Academia de Belas Artes, ao contrário, considerou aquele quadro uma aberração, chamando de “estes gorilas” às figuras dos barqueiros, acrescentando que era uma vergonha para a Rússia e seu governo que um quadro como aquele fosse participar em exposições na Europa.

Mas um dos que defenderam Ilya Repin foi Dostoievski, que observou sobre o quadro: “É impossível não amá-los, estes inocentes.” Repin também disse que aquele quadro era a primeira voz e o mais poderoso grito de toda a Rússia, do seu povo oprimido, cujo grito era reconhecido em cada canto onde se falava o idioma russo. “E é o início da minha fama por toda a Rússia, ótimo”, acrescentou. Esse quadro se tornou um dos principais símbolos da opressão czarista sobre o povo.

Conta-se que Ilya Repin pensava muito ao executar suas pinturas, fazendo desenhos e esboços, incansavelmente. Cada detalhe era pensado e desenhado, antes de ser pintado. Suas obras são resultado de longo estudo, o que torna seus quadros, para quem se dispõe a observá-los atentamente, elegantes, marcantes e fortes. Um de seus quadros mais conhecidos é “Ivan, o Terrível e seu filho Ivan”, além do “Os barqueiros do Volga”.

Ilya Repin conheceu o escritor Lev Tolstoi em Moscou e desde o primeiro encontro nasceu uma amizade que durou mais de 30 anos, até sua morte. Eles se admiravam mutuamente como artistas e quando já não moravam na mesma cidade, trocaram uma farta correspondência. Conversavam durante horas sobre arte. Repin fez vários retratos do amigo, com lápis, caneta, óleo e aquarela.

Entre 1880 e 1883 ele pinta outro de seus grandes quadros: “Procissão pascal na província de Kursk”, onde ele inseriu uma diversidade de tipos russos, como os camponeses, por exemplo, mas dando a eles um tratamento que os colocavam no nível dos personagens de magnitude histórica. Ao lado de uma senhora com ares de arrogância carregando um ícone (no centro do quadro), pintou policiais a cavalo, guardas, comerciantes, clérigos robustos, além de uma multidão de pobres, incluindo um adolescente aleijado que caminha com sua bengala em direção ao centro da pintura.

Repin era grande observador da vida de seu tempo. Com Ilya Repin o Realismo russo entrou na fase de maturidade e atingiu o auge.

No final do século XIX, a Rússia passava por grandes agitações políticas e diversos grupos revolucionários se organizavam. Ilya Repin pintou o quadro “A prisão do propagandista,” entre 1870-1880. Mais uma vez é uma pintura que revela a alma engajada do artista, num episódio dramático da prisão de um revolucionário russo, carregado de bastante tensão, apresentado por Repin como um homem que escolheu o caminho da luta e do sofrimento, sendo retirado de casa pela polícia, sob os olhos assustados de sua família. Repin comungava com os ideais revolucionários e permaneceu fiel a eles até o final de seus dias.

Após a Revolução Socialista de 1917, a região onde ele morava ao norte de São Petersburgo, Kuokkala, foi incorporada à Finlândia (cuja independência se deu nesse ano). Vladimir Lenin, o líder da Revolução, convidou-o à ir morar em Moscou, mas Repin já se sentia muito velho para conseguir fazer essa viagem longa de cerca de 700 km de distância. Ele morreu em Kuokkala em 1930.

Mazé Leite

* * Artista plástica, bacharel em Letras-USP, membro do Ateliê Contraponto de Arte Figurativa.

Honoré Daumier

Honoré Daumier

Honoré Daumier por volta de 1850.

Nome completo Honoré-Victorien Daumier
Nascimento 26 de fevereiro de 1808
MarselhaAlpes-Costa Azul
Morte 10 de fevereirode 1879
Valmondois
Nacionalidade França francês
Área Gravura, pintura e escultura
Formação Académie Suisse

Foto de Honoré Daumier, por Félix Nadar.

Honoré- Victorien Daumier (26 de Fevereirode 1808Marselha – 10 de Fevereiro de 1879Valmondois), foi um caricaturistachargistapintor e ilustrador francês.

Ele foi conhecido em seu tempo como o “Michelangelo da caricatura”. Atualmente ele também é considerado um dos mestres da litografia e um dos pioneiros do naturalismo.

Daumier mudou-se com os pais de Marselha para Paris em 1816. A mudança atendia às ambições do pai, que embora fosse mestre em vitrais queria seguir a carreira de poeta. O adolescente Daumier trabalhava como empregado de um funcionário da justiça e como auxiliar de um contador. Nessa época começou a se interessar pelas artes plásticas. Ia com certa freqüência ao Museu do Louvre, onde ficava admirando e estudando as valiosas coleções. Em 1822 teve aulas no ateliê de Lenoir, um ex-aluno de David. Também estudou profundamente as obras de Rubens e Ticiano.

Suas primeiras litografias datam de 1820, quando Daumier estava empregado como ilustrador em diferentes centros gráficos da cidade. Sua caricatura Gargântua, que ridicularizava o rei Luís Filipe, custou-lhe seis meses de prisão em 1831. Privado da liberdade, o ilustrador matava o tempo retratando os presos. Já em liberdade, assinou um contrato com a revista La Caricature e mais tarde com a célebre Le Charivari.

São conhecidas mais de 4 000 litografias de Daumier. De fato, ele foi um dos litógrafos mais especializados. Nelas reproduziu uma visão crítica, às vezes irônica, às vezes direta e certeira, dos acontecimentos de sua época. Seu estilo é dinâmico e jovial. Com uma linha, Daumier podia redefinir um conceito psicológico, como no Ratapoil (1850).

Depois de dominar a técnica da litografia, Daumier trabalhou como ilustrador para publicidade e o mercado editorial, influenciado pelo estilo de Charlet. Ele desenvolveu a linguagem da charge e da caricatura, caracterizada pela crítica social e política.

Já sua pintura é completamente diferente. A paleta de cores se simplifica nos tons ocre e terra. Os temas são artistas em desgraça e crianças na miséria, algo que o mobilizava de maneira singular. No entanto, seus quadros não visam à emoção gratuita; seus personagens conservam o tempo todo a dignidade humana.

Obras:

Fonte: Wikipédia.

El Greco

Doménikos Theotokópoulos
Δομήνικος Θεοτοκόπουλος

Auto-retrato

Pseudônimo(s) El Greco
Nascimento 5 de outubro de 1541
Heraclião ou Fodele
Morte 7 de abril de 1614 (72 anos)
Toledo
Ocupação pintorescultor e arquiteto
Magnum opus A Disputa das Vestes de Jesus (El expolio); Abertura do Quinto Selo
Movimentoestético Renascença espanhola(Maneirismo)

Doménikos Theotokópoulos (em gregoΔομήνικος Θεοτοκόπουλος), mais conhecido como El GrecoHeraclião ou Fodele, 5 de outubrode 1541 — Toledo7 de abril de 1614) foi um pintorescultor e arquiteto grego que desenvolveu a maior parte da sua carreira na Espanha. Assinava suas obras com o nome original, ressaltando sua origem.

Nasceu em Creta, que naquela época pertencia à República de Veneza e era um centro artístico pós-bizantino. Treinou ali e tornou-se um mestre dentro dessa tradição artística, antes de viajar, aos vinte e seis anos, para Veneza, como já tinham feito outros artistas gregos. Em 1570 mudou-se para Roma, onde abriu um ateliê e executou algumas séries de trabalhos. Durante sua permanência na Itália, enriqueceu seu estilo com elementos do maneirismo e da renascença veneziana. Mudou-se, finalmente, em 1577 para Toledo, na Espanha, onde viveu e trabalhou até sua morte. Ali, El Greco recebeu diversas encomendas e produziu suas melhores pinturas conhecidas.

O estilo dramático e expressivo de El Greco foi considerado estranho por seus contemporâneos, mas encontrou grande apreciação no século XX, sendo considerado um precursor do expressionismo e do cubismo, ao mesmo tempo em que sua personalidade e trabalhos eram fonte de inspiração a poetas e escritores como Rainer Maria Rilke e Nikos Kazantzakis. El Greco é considerado pelo modernos estudiosos como um artista tão individual que não o consideram como pertencente a nenhuma das escolas convencionais. É mais conhecido por suas figuras tortuosamente alongadas e uso frequente de pigmentação fantástica ou mesmo fantasmagórica, unindo tradições bizantinas com a pintura ocidental.

Em sua época teve somente dois seguidores de seu estilo: o seu filho Jorge Manuel Theotokópoulos e Luis Tristán.

Primeiros anos

A Morte da Virgem (antes de 1567, painel em têmpera e ouro, 61,4 × 45 cm, Catedral da Sagrada Morte da Virgem, HermópolisSiros) foi provavelmente pintada perto do final do período cretense do artista. A pintura combina estilos pós-bizantinos e do maneirismo italiano, e elementos iconográficos.

Seu nascimento em 1541 deu-se na vila de Fodele ou de Candia (nome veneziano para Chandax), presentemente chamada Heraclião, em Creta, era descendente de uma próspera família urbana, que provavelmente teria se deslocado de Chania para Candia depois de uma insurreição fracassada contra o domínio veneziano, entre 1526 e 1528. Seu pai, Geórgios Theotokópoulos (morto em 1558), era comerciante e cobrador de impostos. Nada se sabe, porém, sobre sua mãe ou sobre sua primeira esposa, uma grega. Seu irmão mais velho, Manoússos Theotokópoulos (1531 – 13 de dezembro de 1604), foi um comerciante, e passou seus últimos anos de vida na casa de El Greco, em Toledo.

El Greco recebeu seus treinamentos iniciais como pintor de ícones na Escola cretense, o principal centro de arte pós-bizantina. Além da pintura, estudou provavelmente os clássicos da Grécia Antiga, e talvez os clássicos latinos também; quando morreu deixou uma “biblioteca de trabalho” com cerca de 130 volumes, inclusive um exemplar da Bíblia em grego e um Vasari anotado. Candia era então um centro das atividades artísticas onde as culturas ocidental e oriental conviviam harmoniosamente, e cerca de duzentos pintores eram ativos ali, durante o século XVI – inclusive tendo organizado uma guilda de pintores, ao molde corporativo italiano. Em 1563, com a idade de 22 anos, El Greco foi descrito num documento como um “mestre” (“maestro Domenigo”), significando com isso, provavelmente, que já era um membro de guilda e presumivelmente trabalhava em seu próprio estúdio. Três anos depois, em junho de 1566, como testemunha num contrato, ele assinou seu nome como “Mestre Menégos Theotokópoulos, pintor“(μαΐστρος Μένεγος Θεοτοκόπουλος σγουράφος).

Itália

Adoração dos Magos, 1568, Museu SoumayaCidade do México

Pertencendo Creta à Sereníssima República de Veneza desde 1211, era natural que o jovem El Greco procurasse continuar sua carreira naquela cidade italiana. Embora o ano exato dessa mudança não seja claro, a maioria dos estudiosos é da opinião que o pintor trasladou-se por volta do ano de 1567. As informações sobre os anos do mestre na Itália são limitados. Morou em Veneza até 1570 e, de acordo com uma carta escrita por seu mais antigo amigo, e maior miniaturista da época, o croata Giulio Clovio, ele seria um “discípulo” de Ticiano, que já estava octogenário mas ainda vigoroso. Isso pode significar que ele trabalhara no estúdio do grande Ticiano, ou não. Clovio caracterizou El Greco como “um grande talento para a pintura”.

O período veneziano

De sua carreira artística, anterior à sua chegada a Veneza, pouco se conhece. Contudo, recentemente foi identificado um dos seus trabalhos, na Igreja de Koimesis tis Theotokou, em Siro.

Em Veneza trabalhou no ateliê do famoso pintor Ticiano e, sem dúvida, conheceu a pintores como TintorettoVeronèse e Bassano, bem como a obra dos pintores maneiristas do centro da Itália, entre eles DomenichinoParmigianino, etc. Entre suas mais conhecidas obras do período veneziano pode se encontrar A cura do cego, onde se percebe a total e solene influência de Ticiano. Quanto à composição de figuras e à utilização do espaço, a influência de Tintoretto é notável.

O período romano

Retrato de Giorgio Giulio Clovio, o mais antigo retrato de El Greco que subsistiu (c. 1570, óleo sobre tela, 58 × 86 cm, Reggia di CapodimonteNápoles). No retrato de Clovio, amigo e mecenas do jovem pintor cretense em Roma, a primeira evidência de que El Greco surge como retratista é manifestada.

Em 1570, El Greco mudou-se para Roma, quando executou algumas séries de trabalhos marcados por seu aprendizado veneziano. Não se sabe com precisão quanto tempo durou sua estada ali, mas é certo que retornou a Veneza (c. 1575-76) antes de sua mudança para a Espanha. Em Roma, El Greco hospedou-se no Palazzo Farnese, tornado pelo Cardeal Alessandro Farnese um centro pulsante de vida intelectual e artística da cidade. Ali ele travou contato com a elite pensante romana, incluindo-se o humanista Fulvio Orsini, que mais tarde veio a ter em sua coleção sete pinturas do artista (“Visão do Monte Sinai” e o Retrato de Clovio, entre elas).

Diferente de outros artistas cretenses que foram para Veneza, El Greco alterou substancialmente seu estilo e procurou se distinguir pelas novas e incomuns interpretações dos temas religiosos tradicionais. Sua pinturas italianas apresentam forte influência do Renascimento veneziano do período, com figuras ágeis, alongadas, lembrando a Tintoretto e um vigor cromático que o liga a TicianoDos pintores venezianos aprendeu ainda a composição, organizada em paisagens vibrantes e com luz atmosférica. Clovio informa que visitara o artista quando este ainda se encontrava em Roma. El Greco estava sentado, num quarto pouco iluminado, porque ele acreditava que as sombras conduziam melhor suas ideias que a luz do dia, que perturbavam-lhe a sua “luz interior“.

Como resultado de sua permanência em Roma seus trabalhos foram enriquecidos de elementos como a perspectiva violenta, onde pontos desaparecem ou as figuras surgem em atitudes estranhas, com posturas repetidas e torcidas em gestos tempestuosos – todos elementos do maneirismo.

No tempo em que El Greco passou em Roma, tanto Michelangelo como Rafael já haviam morrido, mas seus exemplos continuavam como influência sobre os jovens pintores. O cretense, entretanto, estava determinado a imprimir sua própria marca e em defender sua própria visão artística, suas ideias e estilo pessoais. Ele poupou Correggio e Parmigianino duma crítica particular, mas não hesitou em desfazer-se de Michelangelo em seu Juízo Final, na Capela Sistina. Chegou a oferecer-se ao Papa Pio V para pintar sobre o trabalho inteiro, consoante o novo e mais rígido pensamento católico. Quando, mais tarde, lhe perguntaram o que achava de Michelangelo, El Greco respondeu que “ele foi um bom homem, mas um mau pintor – ficando-se assim diante de um paradoxo: El Greco reagira, condenando, a obra de Michelangelo, mas achava que era impossível resistir à sua influência. A influência de Michelangelo, de fato, pode ser vista em seu trabalho posterior, “Alegoria da Liga Sagrada“. Ao retratar as figuras de Michelangelo, Ticiano, Clovio e, presumivelmente, Rafael, em um dos seus trabalhos (“A Purificação do Templo“), El Greco não apenas expressou sua gratidão mas avançou na pretensão de rivalizar com estes grandes mestres. Como indicam seus próprios comentários, o cretense via em Ticiano, Michelangelo e Rafael exemplos a serem seguidos. Nas suas Crônicas, no século XVII, Giulio Mancini incluiu El Greco dentre os pintores que, de várias formas, haviam iniciado uma reavalição das lições de Michelangelo.

Por causa de suas convicções artísticas pouco convencionais (como por exemplo a reprovação da técnica de Michelangelo) e de sua personalidade, El Greco logo adquiriu inimigos em Roma. O arquiteto e escritor Pirro Ligorio chamou-o de “estrangeiro tolo”, e recentemente foi descoberto em arquivos um material que revela uma dissensão com Farnese, que obrigara o jovem artista a deixar seu palácio. Em 6 de julho de 1572, El Greco se queixou oficialmente deste fato. Alguns meses depois, em 18 de setembro de 1572, pagou suas dívidas para com a Guilda de São Lucas em Roma, com uma miniatura que pintara. No final daquele ano o pintor abriu seu próprio estúdio, e admitiu como seus assistentes os pintores Lattanzio Bonastri de Lucignano e Francisco Preboste.

Entre as principais obras de seu período romano podem encontrar-se a Purificação no Templo e o Retrato de Giulio Clovio, tal como A Piedade. Nesta última obra se percebe claramente a influência de Michelangelo.

O período espanhol

Imigração para Toledo

A Ascensão da Virgem(1577–1579, óleo sobre tela, 401 × 228 cm, Art Institute of Chicago) foi uma das nove pinturas que El Greco realizou para a igreja de São Domingo o Velho em Toledo, sua primeira encomenda na Espanha.

Em 1577, El Greco emigrou primeiro para Madri, e dali foi para Toledo, onde produziu seus trabalhos da maturidade.

Naquela época Toledo era a capital religiosa da Espanha e uma cidade populosa. Dela dizia-se ser um lugar com “um passado ilustre, um próspero presente e um futuro incerto“. Em Roma, El Greco havia conquistado o respeito de alguns intelectuais, mas também enfrentara a hostilidade de certos críticos de arteDurante a década de 1570 o enorme monastério-palácio de El Escorial ainda estava sendo construído e Filipe II de Espanha enfrentava dificuldades para encontrar bons artistas para executar as muitas pinturas que a obra exigia. Ticiano morrera, e TintorettoVeronese e Antônio Mouro recusaram-se todos em ir para a Espanha. Filipe tivera que confiar então no talento menor de Juan Fernándes de Navarrete, cuja gravedad e decoro (seriedade e decoro) foram aprovados pelo rei. Mas este pintor veio a morrer em 1579; o momento parecia ideal para El Greco.

Graças à interseção de Clovio e de Orsini, El Greco conheceu Benito Arias Montano, um humanista espanhol e agente de Filipe; Pedro Chacón, um clérigo; e Luís de Castela, filho de Diego de Castela, deão da Catedral de Toledo. Da amizade com este último El Greco obteve as primeiras encomendas para Toledo. Ali chegou, em julho de 1577, assinando contrato para um grupo de pinturas que se destinavam à ornamentação da Igreja de São Domingo o Velho e para o renomado El Expolio. Em setembro de 1579 ele havia terminado nove pinturas para a São Domingo, dentre as quais A Trindade e A Ascensão da Virgem. Estes trabalhos firmaram a reputação do artista em Toledo.

O pintor não tinha planos de se instalar definitivamente em Toledo, uma vez que seu principal objetivo era atrair as graças de Filipe e conquistar lugar em sua corte. De fato, ele obteve duas importantes encomendas do monarca: a Alegoria da Santa Liga e o Martírio de São Maurício. Mas o rei não gostou destes trabalhos e colocou o retábulo de S. Maurício na sala capitular ao invés de na capela para a qual fora pintada. Ele não fez nenhuma encomenda adicional ao pintor. As razões exatas para o descontentamento real permanecem obscuras. Alguns estudiosos sugerem que Filipe não gostara da inclusão de pessoas vivas nas cenas religiosas retratadas; alguns outros sugerem que El Greco violara uma regra básica da Contra-Reforma, que era a supremacia do conteúdo sobre o estilo. Filipe tinha um interesse especial por sua encomendas, e um gosto muito decidido; uma almejada escultura da Crucifixão por Benvenuto Cellini também desagradara-o, quando chegou, e foi igualmente exilada em local menos evidente. O que acontecera a Federico Zuccari foi ainda pior. Em todo caso, o descontentamento de Filipe terminou com qualquer esperança do patronato real para El Greco.

Maturidade e últimos anos

O Enterro do Conde de Orgaz (1586–1588, óleo sobre tela, 480 × 360 cm, São Tomé, Toledo), é o trabalho mais conhecido de El Greco, ilustra uma popular lenda local. Pintura excepcionalmente grande, é claramente dividida em duas zonas: a superior, divina, e a terrena, abaixo. Entretanto, não há uma linha divisória demarcando esta dualidade, as zonas superior e inferior se confundem na composição.

Sem os favores do rei, El Greco foi obrigado a permanecer em Toledo, onde fora recebido em 1577 como um grande pintor. De acordo com Hortensio Félix Paravicino, um pregador e poeta espanhol do século XVII, “Creta lhe dera a vida e o talento, Toledo foi a melhor pátria, onde a morte lhe permitiu alcançar a vida eterna“. Em 1585 ele parece haver contratado um assistente, o pintor italiano Francisco Preboste, e estabeleceu um estúdio próprio capaz de produzir quadros para altares e estátuas, além das pinturas. Em 12 de março de 1586 obteve a encomenda para O Enterro do Conde de Orgaz, que hoje vem a ser sua obra-prima mais conhecida. A década entre 1597 a 1607 foi o período de maior atividade para El Greco. Durante estes anos recebeu suas maiores encomendas, e seu estúdio criava conjuntos de figuras e esculturas para uma variegada clientela de instituições religiosas. Entre as maiores encomendas desse período estão três altares para a Capela de São José, em Toledo (1597-99); três pinturas (1596-1600) para o Colégio de Doña María de Aragon, no monastério agostiniano de Madri; e o altar-mor, quatro altares laterais e a pintura Santo Idelfonso para a Capela Maior do Hospital de la Caridad de Illescas (1603-05). As minutas da comissão de A Virgem da Imaculada Conceição (1607-13), que era composta pelos membros da municipalidade, descrevem El Greco como “um dos maiores homens neste reino e fora dele“.

Entre 1607 e 1608 El Greco viu-se envolvido numa demorada disputa judicial com as autoridades do Hospital da Caridade de Illescas a respeito do pagamento pelo seu trabalho, que incluía pintura, escultura e projeto arquitetônico. Esta e outras disputas legais contribuíram para as dificuldades econômicas por ele experimentadas no final da vida. Em 1608 recebeu sua última grande encomenda: para o Hospital de São João Batista, em Toledo.

El Greco fez de Toledo seu lar. Contratos sobreviventes mencionam-no como inquilino em 1585 de um complexo de três apartamentos e vinte e quatro quartos que pertenceram ao Marquês de Vilhena. Foi nestes apartamentos, que também lhe serviam como estúdio, que passou o resto de sua vida, enquanto pintava e estudava. Vivia em grande estilo, algumas vezes contratando músicos para tocarem enquanto ceava. Não se pôde confirmar que vivia com a sua companheira espanhola, Jerónima de Las Cuevas, com quem certamente nunca se casou. Ela foi a mãe de seu único filho, Jorge Manuel, nascido em 1578, e que tornou-se também pintor, ajudando ao pai e repetindo-lhe as composições por muitos anos, depois que herdou-lhe o estúdio. Em 1604 Jorge Manuel e Alfonsa de los Morales tiveram o neto de El Greco, Gabriel, que foi batizado por Gregorio Ângulo, governador de Toledo e amigo pessoal do artista.

Durante a execução de uma encomenda para o Hospital Tavera, El Greco caiu gravemente doente, vindo a falecer um mês depois, a 3 de abril de 1614. Poucos dias antes, em 31 de março, havia designado o filho como seu herdeiro. Dois gregos, amigos do pintor, foram as testemunhas de seu testamento (o mestre nunca perdeu o contato com suas origens gregas). Foi sepultado na Igreja de São Domingo o Velho.

Arte do mestre

Técnica e estilo

O primado da imaginação e da intuição sobre o caráter subjetivo de criação foi um princípio fundamental do estilo de El Greco. Ele descartou critérios clássicos como medidas e proporção, acreditando que a graça é o supremo objetivo da arte, mas um pintor somente alcança a graça quando consegue resolver os problemas mais complexos com a obviedade do simples.

“Acredito que a reprodução da cor é a maior dificuldade da arte.”
El Greco (notas do pintor, num dos seus comentários)

O mestre considerava a cor como o elemento mais importante e incontrolável da pintura, e declarou que a cor tinha primazia sobre a forma. Francisco Pacheco del Río, um pintor e teórico que visitara El Greco em 1611, escreveu que o pintor gostava das “cores cruas e sem misturas, em grandes borrões, como uma exibição orgulhosa de sua destreza” e que “ele acredita em constante repintura e retoques ordenados em amplas massas como numa planície da natureza”.

El Expolio (1577–1579, óleo sobre tela, 285 × 173 cm, Sacristia da Catedral de Toledo) é um dos mais famosos retábulos de El Greco. Seus retábulos são conhecidos pela composição dinâmica e inovações surpreendentes.

O historiador de arte Max Dvořák foi o primeiro estudioso a ligar a arte de El Greco com o maneirismo e o antinaturalismo.  Pesquisadores modernos caracterizam teoricamente El Greco como “tipicamente maneirista” e tendo definido suas fontes dentro do neo-platonismo da Renascença. Jonathan Brown acredita que El Greco tentou criar uma forma sofisticada de arte; de acordo com Nicholas Penny, “uma vez na Espanha, El Greco pôde criar seu estilo próprio – começando por repudiar a maioria das ambições descritivas da pintura. Em seus trabalhos da maturidade, o pintor demonstra a característica tendência para dramatizar em vez de descrever. A força da emoção espiritual se transfere da pintura diretamente ao observador. De acordo com Pacheco, sua pintura perturbada, violenta e por vezes aparentemente de execução descuidada era algo devido a acurado estudo para adquirir uma liberdade de estilo. A preferência de El Greco por figuras excepcionalmente altas e esbeltas e composições alongadas, serviam antes aos seus propósitos expressivos e a princípios estéticos, que o levaram a desconsiderar as leis da natureza e alongar suas composições em grandes extensões, particularmente quando eram destinadas aos retábulos de altar. A anatomia do corpo humano torna-se mais transcendente até mesmo nos seus trabalhos da maturidade. Em “A Virgem da Imaculada Conceição” El Greco pediu para que o retábulo fosse ainda mais alongado em 1,5 pé “porque assim a forma ficará perfeita e não reduzida, que é a pior coisa que pode acontecer a uma figura”. Uma inovação significante nos trabalhos maduros do pintor é o entrelaçamento entre forma e espaço; uma relação mútua é desenvolvida completamente entre os dois, de modo a unificar a superfície da pintura. Este entrelaçamento ressurgiria três séculos depois, nas obras de Cézanne e Picasso.

Vista de Toledo (c. 1596–1600, óleo sobre tela, 47,75 × 42,75 cm, Metropolitan Museum of Art, N.Y.) é uma das duas paisagens de Toledo que sobreviveram, pintadas por El Greco.

Outra característica do estilo maduro de El Greco é o uso da luz. Como Jonathan Brown observa, “cada figura parece trazer sua própria iluminação, ou refletir a luz que emana de uma fonte não vista”. Fernando Marias e Agustín Bustamante García, os estudiosos que transcreveram as notas manuscritas de El Greco, estabelecem uma ligação entre o poder que o pintor expressa com a luz às ideias do precedente neo-platonismo cristão.

Estudiosos modernos ressaltam a importância de Toledo para o completo desenvolvimento do estilo maduro de El Greco, e a tensão da habilidade do pintor por ajustar seu estilo conforme seu ambiente. Harold Wethey assevera que “embora grego de nascimento e italiano pela preparação artística, o artista imergiu de tal forma no ambiente religioso de Espanha que tornou-se o principal representante visual do misticismo espanhol”. Ele acredita que os trabalhos da maturidade do mestre têm o “temperamento da intensidade devocional que reflete o espírito religioso do catolicismo espanhol no período da Contra-Reforma”.

El Greco também superou-se como retratista, capaz não apenas de registrar as características dum modelo, mas de expressar também o seu caráter. Seus retratos são menos numerosos que as pinturas religiosas, mas são de qualidade igualmente elevada. Wethey diz que “através de meio tão simples, o artista criou uma caracterização tão memorável que o coloca na mais alta lista como retratista, junto a Ticiano e Rembrandt“.

Afinidades bizantinas

Desde o começo do século XX que os estudiosos debatem se o estilo de El Greco tinha origens bizantinas. Certos historiadores de arte afirmaram que as raízes do pintor estavam fixadas firmemente nas tradições bizantinas, e que a maioria de suas características individuais derivavam diretamente da arte de seus ancestrais, enquanto outros afirmam que a arte bizantina não influiu no trabalho posterior de El Greco.

A descoberta de “Enterro da Virgem” em Siro, um autêntico e assinado trabalho do período cretense do pintor, e a extensa pesquisa de arquivos feita no começo dos anos 1960, contribuíram para reacender e reavaliar estas teorias. Embora siga muitas convenções dos ícones bizantinos, mostra entretanto aspectos de estilo certamente de influência veneziana, e a composição, mostrando a morte de Maria, combina as diferentes doutrinas ortodoxa (Enterro da Virgem) e católica (Ascensão da Virgem). Estudos significativos da segunda metade do século XX dedicados a El Greco reavaliam muitas das interpretações de seu trabalho, enquanto incluem o seu suposto bizantinismo.

Adoração dos Magos(1565–1567, 56 × 62 cm, Museu BenakiAtenas). O ícone, assinado por El Greco (Χείρ Δομήνιχου, “criado pela mão de Doménicos“), foi pintado em Candia, numa velha arca.

Baseado nas anotações escritas de próprio punho pelo pintor, em seu estilo único, e no fato de que El Greco assinava sempre seu nome em caracteres gregos, vêem uma continuidade orgânica entre a pintura bizantina e sua arte. De acordo com Marina Lambraki-Plaka “longe da influência italiana, num lugar neutro que era intelectualmente semelhante à sua Candia natal, os elementos bizantinos de sua educação emergiram e desempenharam um papel catalítico na nova concepção da imagem que nos é apresentada em seus trabalhos da maturidade”. Apreciando essa questão, Lambraki-Plaka discorda dos professores da Universidade de OxfordCyril Mango e Elizabeth Jeffreys, quando afirma que “apesar das afirmações em contrário, o único elemento bizantino nas famosas pinturas dele foram suas assinaturas em alfabeto grego”.  Nikos Hadjinikolaou dispõe, sobre a pintura de 1570 de El Greco, que era “nem bizantina, nem pós-bizantina, mas Ocidental. Os trabalhos que ele produziu na Itália pertencem à história da arte italiana, e aqueles produzidos na Espanha à história da arte espanhola”.

O historiador de arte inglês David Davies busca as raízes do estilo do mestre nas fontes intelectuais de sua educação greco-cristãs e no mundo de suas lembranças sobre os aspectos litúrgicos e cerimoniais da Igreja Ortodoxa. Davies acredita que o clima religioso da Contra-Reforma e a estética do maneirismo agiram como catalisadores para ativar sua técnica individual. Ele afirma que as filosofias do platonismo e do velho neo-platonismo, os trabalhos de Plotino e Pseudo-Dionísio, o Areopagita, os textos dos Pais da Igreja e a liturgia oferecem as chaves para a compreensão do estilo de El Greco.

Resumindo o debate acadêmico sobre o assunto, José Alvarez Lopera, curador do Museu do Prado, em Madri, conclui que a presença de “recordações bizantinas” é óbvia dentro do trabalho da maturidade de El Greco, mas alguns aspectos obscuros de suas origens bizantinas ainda precisam ser esclarecidos.

Arquitetura e escultura

El Greco foi grandemente admirado como arquiteto e escultor, durante sua vida. Ele normalmente realizava a composição completa dos altares, funcionando ao mesmo tempo como arquiteto, escultor e pintor – como, por exemplo, no Hospital da Caridade. Ali ele fez a decoração da capela do hospital, mas o altar de madeira e as esculturas que realizou certamente se perderam. Para o ‘’El Expolio” o mestre projetara um original altar com madeira banhada a ouro, que foi destruído, mas o pequeno grupo de esculturas de “Milagre de Santo Ildefonso” sobreviveu, na parte inferior do quadro.

“Eu não ficaria feliz em ver uma mulher bem proporcional e bonita, não importa sob qual ponto de vista, ainda que extravagante, não apenas perderia sua beleza e ordem, eu diria, quando aumentada em tamanho de acordo com as leis da visão, já não mais apareceria bonita, e , em verdade, seria monstruosa”
El Greco (marginalia inscrita pelo pintor na sua cópia do Vitrúvio)

Sua realização arquitetônica mais importante foi a igreja e Monastério de São Domingo, o Velho, para o qual também executou pinturas e esculturas. El Greco é considerado um artista que incorporou a arquitetura na sua pintura. A ele também são creditadas a arquitetura de quadros de suas próprias pinturas feitas em Toledo. Pacheco o caracterizou como “escritor sobre pintura, escultura e arquitetura”.

Na marginalia que o pintor escreveu em sua cópia da tradução de Daniele Barbaro do Vitrúvio De Architectura, refutou o anexo sobre relíquias arqueológicas, proporções canônicas, perspectiva e matemática. Ele também via a forma indicada pelo Vitrúvio para torcer proporções para compensar a distância do observador como responsável pela criação de formas monstruosas. El Greco era avesso também a muitas regras da arquitetura; ele acreditava acima de tudo na liberdade de criação e defendia a novidade, variedade e complexidade. Estas ideias foram, porém, extremamente distantes daquelas existentes nos círculos arquitetônicos do seu tempo, e não tiveram nenhuma ressonância imediata.

Legado

Crítica póstuma

A Santíssima Trindade(1577–1579, 300 × 178 cm,óleo, Museu do Prado, Madrid, Espanha) faz parte de um grupo de obras criadas para a Igreja de São Domingo o Velho.

El Greco foi desdenhado pela geração imediatamente posterior à sua morte, devido ao fato da sua obra ser oposta, em muitos aspetos, aos princípios do estilo barroco inicial, que surgiu fortemente nos inícios do século XVII e depressa suplantou os últimos traços do maneirismo do século XVI. El Greco foi considerado incompreensível e não tinha seguidores de relevo. Apenas o seu filho e alguns pintores desconhecidos reproduziram algumas fracas cópias de suas obras. Nos fins do século XVIII, comendadores espanhóis elogiaram o seu talento, mas criticaram o seu estilo antinatural e o seu “complexo de iconografia“. Alguns destes comendadores, tais como Acisclo Antonio Palomino de Castro y Velasco e Juan Agustín Ceán Bermúdez descreveram a sua obra como “desprezível”, “ridícula” e “digna de escárnio”. As opiniões de Palomino e Bermúdez eram frequentemente citadas na historiografia espanhola, adornadas com expressões como “estranha”, “esquisita”, “original”, “extravagante” e “ímpar”. A expressão “cheio de excentricidade“, usualmente encontrada em tais textos, com o tempo evoluiu para “loucura”.

Com a ascensão do romantismo, nos finais do século XVIII, a obra de El Greco foi examinada uma vez mais. Para o escritor francês Theophile Gautier, El Greco foi o precursor do romantismo europeu, em todo o seu forte desejo pelo diferente e pelo extremo. Gautier considerava El Greco como o herói romântico ideal (o “dotado”, o “mal entendido”, o “homem”) e foi o primeiro a expressar explicitamente a sua admiração por El Greco. Os críticos de arte franceses, Zacharie Astruc e Paul Lefort, ajudaram a promover uma grande propagação e reavivamento do interesse pela obra do mestre. Na década de 1890 os pintores espanhóis residentes em Paris adotaram-no como seu guia e mentor.

Em 1908, o historiador espanhol Manuel Bartolomé Cossío publicou o primeiro catálogo que abrangia toda a obra de El Greco; no seu livro o cretense foi apresentado como fundador da Escola Espanhola. No mesmo ano, Julius Meier-Graefe, um estudioso do impressionismo francês, viajou à Espanha e grafou as suas experiências no livro de nome The Spanische Reise, o primeiro que estabelece El Greco como um grande pintor do passado. Na obra do cretense Graefe encontrou vislumbres da modernidade. Estas são as palavras que usou para descrever o impacto do pintor nos movimentos artísticos do seu tempo:

Para o artista e crítico inglês Roger Fry, em 1920, El Greco era o arquetípico génio, que faz o que acha ser certo e que “age com completa indiferença para com o efeito que essa expressão poderá ter no público”. Fry descreveu o pintor como um “velho mestre, que não é meramente moderno, mas que atualmente aparece uns bons passos à nossa frente e se vira para trás, para nos indicar o caminho”. Nesse mesmo período outros pesquisadores desenvolveram teorias alternadas, mais radicais. August Goldschmidt e Germán Beritens argumentaram que El Greco pintara figuras humanas alongadas porque tinha problemas visuais (possivelmente astigmatismo progressivo e estrabismo), que o faziam ver os corpos mais alongados do que eram na realidade e de um ângulo perpendicular. O escritor inglês William Somerset Maugham atribuiu o estilo pessoal de El Greco ao fato de o mesmo ser homossexual, e Arturo Perera atribuiu-o ao uso de marijuana.

“Ao escalar o abismo, travessa escorregadia pela chuva
—Quase trezentos anos já passados—
Senti-me apreendido pela mão de Poderoso Amigo
e vi-me, realmente, erguido pelas duas
enormes asas de Doménicos, aos altos céus que desta vez estavam repletos de
laranjeiras e água, falando da pátria.”
Odysséas ElýtisDiário de um abril irreconhecível

Michael Kimmelman, um revisor do jornal The New York Times, declarou que “El Greco tornou-se a essência da pintura grega, para os Gregos; para os espanhóis tornou-se a própria essência da espanhola”. Como provado pela campanha encetada pela Galeria Nacional de Arte, em Atenas para aumentar os fundos a fim de realizar a compra de “São Pedro“, em 1995, El Greco é apreciado não só pelos entendidos, mas também pelo público comum; graças às doações maioritariamente individuais e fundações de beneficência públicas, a Galeria Nacional de Arte conseguiu 1,2 milhão de dólares e comprou o quadro. Referindo-se ao consenso geral sobre o impacto de El Greco, Jimmy Carter disse, em abril de 1980, que El Greco foi o mais extraordinário pintor desde a sua época, como nunca mais de viu, e que esteve talvez cerca de três a quatro séculos à frente do seu tempo.

Influência em outros artistas

A Abertura do Quinto Selo(1608–1614, óleo, 225 × 193 cm., New York, Metropolitan Museum) foi sugerida como sendo a fonte primária da inspiração de Les Demoiselles d’ Avignon de Picasso.

A reavaliação de El Greco não se limitou aos estudiosos. De acordo com Efi Foundoulaki “os pintores e os teóricos do século XX descobriram um novo El Greco, mas durante o processo também descobriram e reavaliaram a si próprios”. A sua expressividade e cores influenciaram Eugène Delacroix e Édouard Manet. Para o grupo Der Blaue Reiter, em Munique, 1912, El Greco tipificou a construção mística interior, que era o que a sua geração tinha de descobrir, como tarefa. O primeiro pintor que parece ter notado o código estrutural na morfologia estrutural de El Greco foi Paul Cézanne, um dos precursores do cubismo. Análises morfológicas comparativas dos dois pintores revelaram os seus elementos comuns, como a distorção do corpo humano, os avermelhados (em aparência, apenas), fundos inacabados e similaridades na renderização do espaço. De acordo com Brown, “Cézanne e El Greco são irmãos espirituais, apesar dos séculos que os separam”. Fry observou que Cézanne desenhou “através de sua grande descoberta da permeação de cada  parte do desenho com um tema plástico uniforme e contínuo”.

Os simbolistas e Pablo Picasso, durante o período azul, desenharam na tonalidade fria de El Greco, usando a anatomia das suas figuras ascéticas. Enquanto Picasso trabalhava em Les Demoiselles d’Avignon, visitou um seu amigo, Ignacio Zuloaga, no seu estúdio em Paris, e estudou a Abertura do Quinto Selo (em posse de Zuloaga desde 1897). A relação entre o quadro de Picasso e o de El Greco foi notada nos primeiros anos da década de 1980, quando as similaridades estilísticas e o relacionamento entre os motivos das suas obras foram analisados.

“Em todos os casos, apenas a execução conta. Deste ponto de vista, é correto dizer que o cubismo tem origem espanhola e que eu inventei o Cubismo. Precisamos procurar a influência espanhola em Cézanne. As coisas, por si só, precisam disso, a influência de El Greco nelas. Mas a sua estrutura é cubista.”
Picasso falando sobre “Les Demoiselles d’Avignon” a Dor de la Souchère, em Antibes.

As primeiras explorações cubistas de Picasso tinham o objectivo de descobrir outros aspectos da obra de El Greco: análise estrutural das suas composições, refração multifacetada das formas, interligação entre formas e espaço e efeitos especiais nos realces. Muitos aspectos do cubismo, tais como as distorções e a renderização materialista do tempo, têm suas analogias na obra de El Greco. Segundo Picasso, a estrutura de El Greco é cubista. Em 22 de fevereiro de 1950, Picasso iniciou a sua série de “paráfrases” de obras de outros pintores com The Portrait of a Painter after El GrecoFoundoulaki afirma que Picasso completou o processo de ativação dos valores da pintura de El Greco, que tinham começado com Manet e continuado com Cézanne.

Os expressionistas focalizaram-se nas distorções expressivas de El Greco. Franz Marc, um dos principais pintores do movimento expressionista alemão, declarou: “Referimo-nos com prazer e perseverança ao caso de El Greco, porque a glória deste pintor está intimamente ligada à evolução das nossas perspectivas de arte”. Jackson Pollock, grande referência no movimento expressionista abstrato, também foi influenciado por El Greco. Por volta de 1943, Pollock tinha concluído 60 composições desenhadas com base em El Greco e possuía três livros sobre o mestre cretense.

Retrato de Jorge Manuel Theotocopoulos (1600–1605, óleo, 81 × 56 cm, Museu Provincial de Bellas Artes, Sevilha)

Os pintores contemporâneos são também inspirados pela obra de El Greco. Kysa Johnson usou obras de El Greco como quadro compositivo para alguns de seus trabalhos, e a distorção anatómica do mestre é, de certo modo, refletida nos retratos de Fritz Chesnut.

A personalidade e obra de El Greco serviram de fonte de inspiração ao poeta Rainer Maria Rilke. Uma parte de seus poemas (Himmelfahrt Mariae I.II., 1913) foi diretamente baseada em Immaculate Conception, de El Greco. O escritor grego Nikos Kazantzakis, que sentia uma forte afinidade espiritual por El Greco, chamou a sua autobiografia de Relatório de Greco e escreveu um tributo ao mestre.

Em 1998, o compositor eletrônico e artista grego Vangelis lançou El Greco, uma sinfonia inspirada no artista. Este álbum é uma extensão do anterior, de Vangelis, Foros Timis Ston Greco (“Um Tributo a El Greco“). A vida do mestre é também tema de um filme, dirigido por Yannis Smaragdis, que se iniciou em outubro de 2006, na ilha de Creta, e estreou-se no cinema um ano depois; o ator britânico Nick Ashdon foi escolhido para representar o papel de El Greco.

Autoria controversa

O tríptico de Módena (1568, painel em têmpera, 37 × 23,8 cm (central), 24 × 18 cm, Galeria Estense, Módena) pequena composição atribuída a El Greco.

O número exacto das obras de El Greco é uma questão controversa. Em 1937, um estudo fortemente influente, pelo historiador de arte Rodolfo Pallucchini, fez com que houvesse um número muito maior de obras aceitas como sendo de El Greco. Pallucchini atribuiu a El Greco um tríptico na Galeria Estense, em Módena (ver imagem), com base numa assinatura, na parte de trás do painel central do tríptico (“Χείρ Δομήνιχου”, criado pela mão de Doménikos). Houve consenso quanto a que o tríptico era de fato uma das primeiras obras de El Greco e, portanto, a publicação de Palluchini tornou-se a bitola para as atribuições das obras ao artista. No entanto, Wethey negou que o tríptico de Módena tinha alguma relação ao artista e, em 1962, publicou um catálogo raisonné, em reação, com uma reduzidíssima lista de obras. Considerando que José Camón Aznar, historiador de arte, atribuiu entre 787 e 829 quadros ao mestre cretense, Wethey reduziu esse número para apenas 285 obras autênticas e Halldor Sœhner, pesquisador de arte espanhola, reconheceu apenas 137. Wethey e outros estudiosos rejeitaram a noção de que Creta tivesse algum crédito na sua formação e sustentou a eliminação de várias séries da obra de El Greco.

«Δομήνικος Θεοτοκόπουλος(Doménicos Theotocópoulos) ἐποία». As palavras de El Greco ao assinar seus quadros. El Greco adicionava ao seu nome a palavra “epoia” (ἐποία, “ele fê-lo”). Em A Assunção o pintor usou a palavra “deixas” (δείξας, “ele é exibido”) em vez de “epoia“.

Desde 1962 a descoberta de Dormition e a extensa pesquisa arquivada gradualmente convenceram os estudiosos de que as afirmações de Wethey não eram totalmente corretas, e que o seu catálogo pode ter distorcido a percepção da inteira natureza das origens, desenvolvimento e obra de El Greco. A descoberta de Dormition conduziu à atribuição de três outras obras assinadas “Doménicos” para El Greco (Tríptico de ModenaSt. Luke Painting the Virgin and Child, e A Adoração dos Magos) e daí à aceitação de mais obras, como autênticas – algumas assinadas, outras não (tais como Paixão de Cristo (Pietà com Anjos) pintada em 1566), – que foram trazidas para o grupo das primeiras obras de El Greco. El Greco é agora encarado como um artista com treino e formação cretenses; uma série de obras iluminaram o estilo inicial de El Greco, algumas pintadas enquanto ele ainda se encontrava em Creta, algumas da sua época de Veneza, e algumas de quando ele estava em Roma. Até Wethey afirmou que “ele [El Greco] provavelmente pintou o disputado tríptico da Galeria Estense antes de deixar Creta”. No entanto, controvérsias sobre o número exato de obras autênticas de El Greco continuam por encontrar um desfecho, e o status do catálogo de Wethey está no centro desses desentendimentos.

Galeria

  1. Existe uma disputa sem conclusão acerca do local exato do nascimento de El Greco. A maioria dos pesquisadores e estudiosos aponta Candia como o local correto. No entanto, de acordo com Achileus A. Kyrou, um proeminente jornalista grego do século XX, o pintor teria nascido em Fodele, e as ruínas da casa de sua família ainda existem no lugar onde era a antiga Fodele (a aldeia mudou de lugar, em razão do ataque de piratas). A reivindicação de Candia baseia-se em documentos de 1606, quando o pintor tinha 65 anos. Os naturais de Fodele retrucam que o pintor declarou na Espanha ser de Heraclião porque aquela era a cidade maior e mais conhecida próxima da minúscula Fodele.
  2. Theotocópoulos adquiriu o nome “El Greco” na Itália, onde é costume identificar a pessoa pelo país ou cidade de origem. A curiosa forma de ser precedido pelo artigo (El) tanto pode ter se originado no dialeto veneziano quanto no castelhano, embora no espanhol seu apelido devesse ser “El Griego“. O mestre cretense era geralmente conhecido na Itália e na Espanha com o nome de Dominico Greco, sendo a forma El Greco utilizada apenas após sua morte.
  3. De acordo com seus contemporâneos, El Greco adquiriu este apelido não apenas por conta de seu local de origem, mas pela sublimidade de sua arte: “Foi por grande estima e celebração que ele era chamado o Grego (il Greco)” (comentário de Giulio Cesare Mancini sobre El Greco em suas “Crônicas“, escritas poucos anos após a morte do pintor).
  4. Este documento pertencia aos arquivos notariais de Candia e foi publicado em 1962 Menegos é a forma dialetal veneziana para Doménicos, e Sgourafos (σγουράφος=ζωγράφος) é o termo grego para pintor
  5. De acordo com pesquisas em arquivos feitas nos anos 1990, El Greco encontrava-se em Candia na idade de vinte e seis anos. É desta época alguns de seus trabalhos mais admirados, criados no espírito dos pintores pós-bizantinos da Escola cretense. Em 26 de dezembro de 1566, El Greco buscou permissão das autoridades venezianas para vender um “painel da Paixão de Cristo executado em um “fundo dourado” (“del de Passione Nostro Signor Giesu o Christo, dorato”) em leilão. O ícone bizantino pelo jovem Doménicos que descreve a Paixão de Cristo, pintado sobre um fundo de ouro, foi avaliado e vendido em 27 de dezembro de 1566 em Candia pelo preço de setenta ducados de ouro (o painel foi avaliado por dois artistas, sendo um deles o renomado pintor de ícones, Georgios Klontzas. Um estimou-lhe em oitenta ducados, e o outro por setenta) – um valor equivalente aos trabalhos deste período feitos por Ticiano ou Tintoretto. Com base nisso, parece que a viagem de El Greco para Veneza deu-se somente após essa data. Em um dos seus últimos artigos, Wethey reavaliou suas estimativas anteriores e admitiu que o pintor deixara Creta em 1567. De acordo com outra matéria de arquivo – desenhos de El Greco enviados a um cartógrafo cretense – ele estava em Veneza antes das 1568.
  6. Mancini declara que El Greco dissera ao Papa que se todo o trabalho fosse demolido, faria ele mesmo algo de forma decente e com harmonia.
  7. Toledo devia ser uma das maiores cidades da Europa, durante aquela época. Em 1571 sua população era de 62 000 habitantes.
  8. El Greco assinou o contrato para a decoração do altar-mor da capela do Hospital da Caridade em 18 de junho de 1603. Ele concordou em concluir o trabalho até agosto do ano seguinte. Embora raramente fossem definidos tais prazos de conclusão, este era um termo de potencial conflito. Ele também concordou em permitir que a própria irmandade escolhesse os avaliadores. Os membros da irmandade tiraram proveito deste ato de boa-fé, e não desejaram que se chegasse a uma avaliação justa. Finalmente, El Greco assinou sua representação legal ao Preboste e a um seu amigo, Francisco Ximénez Montero, e aceitou o pagamento de 2.093 ducados.
  9. Doña Jerónima de Las Cuevas parece haver sobrevivido a El Greco e, embora o mestre tenha reconhecido ambos os filhos com ela, nunca se casaram. Este fato confundiu os pesquisadores, porque ele a menciona em vários documentos, até incluindo-a em seu testamento. A maioria dos historiadores concorda que o pintor tivera uma união infeliz em sua juventude, o que lhe impediu de contrair novas núpcias.
  10. O mito da loucura de El Greco possui duas versões. Na primeira, Gautier acreditava que o pintor era agressivo por conta de sua excessiva sensibilidade artística. Por outro lado, o público e os críticos não possuíam os critérios ideológicos de Gautier e mantiveram a ideia de El Greco como um “pintor maluco” e, então, suas pinturas mais “loucas” não eram admiradas e sim consideradas como documentos históricos que provavam a sua “loucura”.
  11. Esta teoria gozou de surpreendente popularidade durante os primeiros anos do século XX em oposição ao psicólogo alemão David Kuntz. Se teve ou não o pintor astigmatismo progressivo é uma questão em aberto. Stuart Anstis, Professor at the Universidade da Califórnia (Departamento de Psicologia), conclui que “ainda mesmo se El Greco fosse astigmático, ele teria se adaptado a isto, e suas figuras, retiradas da sua memória ou vida, teriam proporções normais. Seus alongamentos era uma expressão artística, não um sintoma visual.” De acordo com o professor de espanhol John Armstrong Crow o “astigmatismo jamais seria capaz de dar qualidade a uma pintura, nem talento para um tolo.”

Fonte – Wikipédia.

 

CARL SPITZWEG E A ARTE DA CONTEMPLAÇÃO.

Carl Spitzweg foi um pintor alemão do século XIX, tão popular na Alemanha que sua obra foi vítima de roubos espetaculares, esquemas de falsificação milionários e até mesmo adorada por Adolf Hitler. Descubra mais sobre esse artista, hábil em ver a beleza das pequenas coisas, em especial do simples ato de observar.

Carl_Spitzweg_033.jpgDer Schmetterlingsjäger (O caçador de borboletas)

Estamos em 3 de setembro de 1989. Uma exposição de arte acontece no Palácio de Charlottenburg, o maior dos castelos de Berlim. Em meio aos muitos visitantes, um jovem rapaz empurra um homem em uma cadeira de rodas. O homem na cadeira de rodas, no entanto, não possui nenhuma deficiência física: tudo é um truque para trazer ferramentas escondidas na intenção de roubar dois famosos quadros da exposição do pintor Carl Spitzweg. Usando alicates para arrebentar os fios de contenção das molduras, o jovem e o suposto cadeirante disparam o alarme, e a guarda ainda tenta cercar os criminosos na ala onde estão os Spitzweg, mas os ladrões conseguem se misturar na multidão e escapar. Os quadros até hoje não foram recuperados.

Carl Spitzweg foi um pintor alemão, nascido em 1808 na cidade de Unterpfaffenhofen. Carl, o filho do meio de uma rica família de comerciantes, completou seus estudos em farmácia na Universidade de Munique, área em que trabalhou até 1833, ano em que uma herança lhe permitiu abandonar todas as suas preocupações financeiras e dedicar-se apenas à pintura. Spitzweg passou então a viver um dia a dia monástico em um sótão de uma casa na pitoresca cidade de Rothenburg, só ocasionalmente recebendo a visita de amigos pintores.

carl-spitzweg-rosenduft-erinnerung-09236.jpgRosenduft, Erinnerung (Memória do cheiro da rosa)

verdachtiger_rauch.jpgVerdächtiger Rauch (Fumaça suspeita)

Carl_Spitzweg_-_Mäherinnen_im_Gebirge.jpgMäherinnen im Gebirge (O aparador nas montanhas)

Carl_Spitzweg_062.jpgKunst und Wissenschaft (Ciência e arte). Repare nos dois homens que discutem no canto inferior direito do quadro.

36m0022a.jpgDer Witwer (O viúvo)

Na arte, Spitzweg foi um autodidata. Seu aprendizado consistiu em estudar por conta própria o clássico de John Burnet Treatise on Painting e visitar os diversos centros da arte europeus de sua época, como Londres, Paris, Praga e Veneza. As primeiras experiências artísticas práticas de Spitzweg foram cópias das obras dos mestres da arte flamenga. Rapidamente, contudo, seu estilo tomou a forma da arte da era Biedermeier, que se vale de cores naturais para dar atenção ao conforto das ativididades privadas e hobbies da burguesia do início do século XIX. A obra de Carl Spitzweg é conhecida por olhar para a vida com ternura e humor. É impossível para Spitzweg não reparar com carinho as minúcias e a comicidade dos afazeres diários de suas personagens, sejam elas bibliotecários, caçadores de borboletas, acadêmicos, alquimistas, poetas, músicos de rua, comerciantes, homens que se organizam numa serenata, mulheres que cuidam de seus jardins ou famílias que passeiam por um campo ensolarado. Embora Spitzweg pareça ter por um vasto leque das atividades humanas a curiosidade na mesma luz, existe um tema que parece cativá-lo acima dos outros. Na obra do artista, a contemplação, a meditação e a literatura surgem como atividade romântica. Parece que Spitzweg não quer retratar nem a pessoa, nem seu objeto de observação, mas sim o que acontece entre esses dois, a experiência do olhar em si, esse fenômeno invisível e fantástico, na maioria das vezes não percebido, da análise, da leitura, da contemplação.

Carl_Spitzweg_-_Der_Kaktusliebhaber.jpg Der Kaktusliebhaber (O amante do cactus).Reparemos como nessa pintura, o ato de observar transforma o observador: o homem toma a forma curvada do cactus.

Carl_Spitzweg_-_Ein_Gelehrter_der_Naturwissenschaften.jpg

Ein Gelehrter der Naturwissenschaften (Um estudioso das ciências naturais)

Carl_Spitzweg_025.jpgDer Geologe (O geólogo)

Carl_Spitzweg_031.jpgDer Botaniker (O botânico). Nesta pintura, Spitzweg esconde o objeto de observação da sua personagem.

carl-spitzweg-ein-besuch-09212.jpgEin Besuch (Uma visita). Aqui a natureza irrompe de uma janela, fazendo com que a personagem troque a leitura pela contemplação de um pássaro.

Observemos um de seus trabalhos mais famosos, Der Bücherwurm (O rato de biblioteca).

Carl_Spitzweg_021.jpg Der Bücherwurm (O rato de biblioteca)

Nele, um bibliotecário, trepado em uma escada portátil, consulta ao mesmo tempo quatro livros da prateleira de metafísica, distribuídos por seus braços e pernas. Pela vestimenta é um homem com recursos, que, provavelmente por conta da vida da leitura, apresenta já um bom grau de miopia. Um lenço que escapa do bolso de sua casaca completa sua personalidade, como distraído, alienado. Spitzweg parece divertir-se com a personagem, que procura respostas em livros antigos, tendo a luz natural do sol vindo como num feixe divino de algum lugar alto, como se tentasse chamar sua atenção para onde verdadeiramente está a chave do enigma.

Carl_Spitzweg_-_Der_arme_Poet_(Neue_Pinakothek).jpgDer arme Poet (O poeta pobre)

Der arme Poet (O poeta pobre) é, sem dúvidas, sua obra mais famosa. Esse quadro mostra um homem, deitado em uma cama de livros em um sótão. Em um varal pendura uma única toalha. Ainda está em suas roupas de dormir, apesar de ser dia. Um guarda-chuva foi amarrado no teto certamente para que desvie uma goteira. A imagem do poeta miserável completa-se em seu ato de ter a pena à boca e as mãos que contam as sílabas de seus versos. O poeta pobre foi uma das obras que foi roubada do Palácio de Charlottenburg em 1989 (junto a seu outro quadro, A carta de amor), esse sendo apenas o seu segundo roubo (o primeiro teria ocorrido em 1976). Esses não foram os únicos crimes, no entanto. Na década de 30, 54 os quadros de Spitzweg foram falsificados e vendidos como originais. Até 1992, 36 de seus quadros ainda apareciam na lista de obras desaparecidas da polícia alemã.

Carl_Spitzweg_030.jpgDer Liebesbrief (A carta de amor), um dos dois quadros do roubo de 1989.

Além das dimensões relativamente pequenas das obras de Spitzweg, existe um mais importante motivo por que o pintor é tão cobiçado pelos ladrões de arte: sua popularidade. O poeta pobre, em uma pesquisa, foi considerada simplesmente a segunda obra mais adorada pelo povo alemão, perdendo apenas para a Mona Lisa. O próprio Adolf Hitler, conhecido por seu amor pela arte e arquitetura, fazia parte desse grupo de admiradores. Hitler foi dito, por limitações financeiras, impossibilitado de comprar obras de arte até o início da década de 20. No entanto, próximos do líder do Partido Nazista dizem que a primeira peça de arte que comprou foi um Spitzweg, a qual, embora não se tenha documentado o título, sabe-se que figurava nas paredes do primeiro andar de seu apartamento na Prinzregentenstraße em 1929. Essa admiração durou, pelo menos, mais uma década: sabe-se também que a administração da cidade de Salzburg teria presenteado Hitler em abril de 1938 com o quadro de Spitzweg Sonntagsspaziergang (Passeio de domingo).

Carl_Spitzweg.jpgCarl Spitzweg, em foto de cerca de 1860.

Carl Spitzweg morreu em 1885, considerado o maior dos pintores do movimento Biedermeier. Ao longo de sua vida artística, que durou pouco mais de meio século, deixou aproximadamente 1.500 quadros diferentes. Sua imensa popularidade premiou seu legado com roubos e falsificações; no entanto, sua obra prevaleceu. Suas personagens continuam, até hoje, meditando sobre os mesmos interesses, pequenos e grandes, séculos após sua criação, inabaladas. E não só isso: em 2012, um promotor de justiça descobriu em um apartamento em Munique mais de 1.300 obras de arte perdidas, de autores como Pablo Picasso, Auguste Rodin, Albrecht Dürer e Edvard Munch. Tocando Piano, um rascunho de Spitzweg, estava em meio a elas. Carl Spitzweg continua a nos oferecer sua atenção à vida, mesmo quase 130 anos após sua morte.

Carl_Spitzweg_-_Sonntagsspaziergang.jpgSonntagsspaziergang (Passeio de domingo), obra presenteada a Adolf Hitler em 1938.

© obvious: http://lounge.obviousmag.org

Caravaggio

 

Caravaggio foi um dos maiores artistas do barroco italiano que viveu no século XVI. Dono de uma personalidade forte e um estilo extravagante, grande parte de sua obra chocou a sociedade.

Sua pintura foi considerada revolucionária para a época, seja nas técnicas utilizadas, seja nas pessoas retratadas.

Segundo ele: “Não sou um pintor valentão, como me chamam, mas sim um pintor valente, isto é, que sabe pintar bem e imitar bem as coisas naturais.”

O nome Caravaggio refere-se ao nome da cidade onde ele viveu. Alguns historiadores acreditam que ele nasceu em Milão e mais tarde, passou a viver na vila de Caravaggio. Isso porque sua família fugia da peste em Milão.

Retrato de Caravaggio

Retrato de Caravaggio por Ottavio Leoni

Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio, nasceu dia 29 de setembro de 1571 na cidade de Porto Ercole, na comuna de Monte Argentario, Itália. Quando tinha 6 anos seu pai faleceu.

Com 12 anos frequentou o ateliê de Simone Peterzano, em Milão, o que fez despertar seu interesse nas artes plásticas. Ali, ele permaneceu como aprendiz durante uns anos.

Com 18 anos sua mãe faleceu. Destinado a viver como pintor, Caravaggio foi viver em Roma. Ali, trabalhou como aprendiz em diversos ateliês. No início, ele teve uma vida difícil, chegando a passar fome e vivendo nas ruas da grande cidade.

Assim, passou a vender pinturas nas ruas, até começar a trabalhar para o Cardeal Del Monte. Ele era patrono da escola de pintores de Roma, a chamada “Academia de São Lucas”. Foi durante esse período que Caravaggio produziu diversas obras de cunho religioso.

No entanto, começou a ter problemas com os excessos da vida boêmia que levava. Diante disso, ficou endividado e recusou trabalho por ser fiel ao seu estilo.

Além disso, chegou a matar o nobre Tommasoni, durante um jogo de pallacorda, em 1606. Após esse evento, foge de Roma para Nápoles.

Mais tarde, ele foi para a ilha de Malta, onde chegou a ser preso visto ter brigado com um nobre. Depois disso, vai para a Sicília, passando pelas cidades de Siracusa, Messina e por fim, Palermo.

Em 1609, Caravaggio retorna a Nápoles e ali foi ferido pelos amigos do nobre que havia brigado. Machucado e acometido pela malária, falece no dia 18 de julho de 1610, aos 38 anos.

Dias depois de sua morte, o Papa de Roma o absolveu do assassinato que cometeu.

Curiosidade

Há controvérsias sobre sua morte, sendo que alguns acreditam que ele foi assassinado numa praia, ao norte de Roma. Seu corpo nunca foi encontrado.

Principais Obras

Caravaggio produziu diversas obras, das quais se destacam:

Baco de Caravaggio

Baco

Narciso de Caravaggio

Narciso

Medusa de Caravaggio

Medusa

Os Jogadores de Caravaggio

Os Trapaceiros

A Ceia em Emaús de Caravaggio

A Ceia em Emaús

Judith e Holofernes

Judith e Holofernes

Os Músicos de Caravaggio

Os Músicos

O Tocador de Alaúde, Caravaggio

O Tocador de Alaúde

Flagelação de Cristo, Caravaggio

A Flagelação de Cristo

Vocação de São Mateus Caravaggio

Vocação de São Mateus

O êxtase de São Francisco de Assis, Caravaggio

O Êxtase de São Francisco de Assis

Meditação de São Francisco de Assis, Caravaggio

São Francisco de Assis em Meditação

David com a Cabeça de Golias, Caravaggio

David com a Cabeça de Golias

Decapitação de João Batista

A Decapitação de João Batista

Crucificação de São Pedro

Crucificação de São Pedro

Características das Obras

Com um estilo singular, Caravaggio expressou forte realismo em suas obras. Em grande parte de suas obras prevalecem os temas religiosos e mitológicos.

Utilizou jogos de luzes e sombras, técnica típica do estilo barroco chamada de “claro-escuro” (em italiano, chiaroscuro)

Assim, o fundo de suas obras era composto de cores escuras que muitas vezes confundiam os espectadores.

O “tenebrismo” é o nome dado a essa técnica em que ele utilizava luz e cor em primeiro plano sobre um fundo escuro.

Essa característica presente nas obras de Caravaggio, oferecia um ar sombrio e maior dramaticidade as personagens retratadas.

Portanto, o foco maior do artista estava em expressar o rosto e os sentimentos das figuras retratadas. A grande questão é que ele produziu obras com foco nos aspectos mundanos, ou seja, sem grandes idealizações. Gostava de representar as pessoas como eles eram e como ele via nas ruas de Roma.

Documentário sobre Caravaggio

O documentário “Caravaggio – O Mestre dos Pincéis e da Espada” retrata a vida do pintor italiano. Dirigido por Helio Goldsztejn, foi produzido pela TV Cultura e a Malabar Filmes em 2012.

Fonte: Toda matéria.

Canaletto.

Canaletto
Nome nativo Giovanni Antonio Canal
Nascimento 17 de outubro de 1697
Veneza
Morte 19 de abril de 1768 (70 anos)
Veneza
Cidadania República de Veneza
Progenitores Pai:Bernardo Canal
Ocupação Pintor, aqua-fortista
Canaletto (II) 006.jpg

Giovanni Antonio Canal - Venice- The Grand Canal with S. Simeone Piccolo - National Gallery London.jpg

Canaletto (Veneza18 de outubro de 1697 – idem, 19 de abril de 1768 (70 anos), de seu verdadeiro nome Giovanni Antonio Canal foi um artista famoso pelas suas paisagens urbanas de Veneza, daí o nome Canaletto. Em 1746 mudou-se para Londres, onde se dedicou a pintar paisagens inglesas.

Também se conhece como Canaletto o pintor Bernardo Bellotto, seu sobrinho.

Pintor italiano nascido em Veneza, famoso por retratar a atmosfera própria de Veneza sob o ângulo barroco, captando a visão de suas ruas e canais, envoltos em luzes e sombras. Recebeu sua formação com o pai, o pintor e cenógrafo Bernardo Canal, e estudou com o paisagista Luca Carlevaris.

Mudou-se para Roma (1719) onde fez numerosos desenhos de ruínas e monumentos e diversos cenários para as óperas de Alexandre Scarlatti. Entrou em contato com pintores como Gian Paolo Pannini, perito em perspectivas, e o flamengo Gaspar van Wittel, paisagista precursor de temas panorâmicos e voltou para Veneza onde passou a trabalhar pintando panoramas da cidade, sob encomendas. Demonstrando um esplêndido tratamento das luzes e sombras e de seu perfeito domínio da perspectiva, em um estilo mais objetivo do que o de seu rival, o pintor italiano Francesco Guardi. Passou a usar a câmara escura (1730), um instrumento óptico que permitia a passagem dos raios solares por uma lente e refletia a imagem que se queria pintar, como base de suas obras. Conseguiu assim mais precisão no desenho, mais luminosidade e um contraste mais brilhante entre as cores. Foi nessa época que iniciou os famosos capricci, composições formadas por elementos arquitetônicos reconhecíveis sobre um fundo imaginário.

Morou na Inglaterra (1746-1755), onde o cônsul inglês em Veneza, Joseph Smith, apresentou o artista a importantes clientes que desejavam paisagens de Veneza como recordação de viagem. Na Inglaterra pintou paisagens urbanas e rurais, especialmente de Londres, Oxford e Windsor.

De volta a Veneza (1763), ingressou na Academia de Belas-Artes, da qual foi membro até sua morte e entre seus principais discípulos destacou-se seu sobrinho Bernardo Bellotto.

BERTHE MORISOT – VIDA E OBRA

 

August Macke

Artista August Macke – Macke
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August Macke
Pintor
August Macke, nasceu em 03 de janeiro de 1887, em Meschede na Westfália. Seu pai August F. Hermann Macke era engenheiro civil e empreiteiro, sua mãe Maria Florentine, conhecida na época de solteira como Adolph, era empreendedora de um agricultor. Seu pai possuía um forte gosto pelas artes, possuindo um talento invulgar. Após o nascimento de Macke eles se mudaram para uma casa, na colônia de Brüsseler Strasse. Em 1897, Macke ingressou na escola secundária de Kreuz, onde conheceu Hans Thuar. O pai de Thuar possuía uma coleção de Xilografias japonesas, que causaram uma forte impressão em Macke.

Macke mudou-se para Bona no final de 1900, onde ingressou na escola secundária de Bona. Macke conheceu Elisabeth Gerhardt, que se tornaria mais tarde sua  esposa, a caminho da escola em 1903.

Ainda, na escola, Macke viu algumas pinturas de Arnold Böcklin no Kunstmuseum de Basileia, onde o simbolismo do artista deixara uma marca profunda no jovem sensível. Esta foi uma grande influência no desenvolvimento artístico de Macke, que estava cada vez mais determinado a ser artista. Essa idéia era contrariada por seu pai, que na altura da quase pobreza preocupava-se com o futuro do filho e achava que ele deveria levar uma vida normal.

Contudo, os planos de Macke encontraram o apoio de um artesão, Alfred H. Schütte, um industrial pai de um colega, que, além de financiar seus estudos, permitiu a ele submeter seu trabalho à opinião de Paul Clemem, professor de História de Arte em Bona, e de Claus Meyer, pintor e professor na Academia de Düsseldorf. Na realidade Macke nunca teve preocupações financeiras, fato que teve suas repercussões no seu desenvolvimento artístico e nas suas obras. Macke deixou a escola secundária cedo, em outubro de 1904, e iniciou os seus estudos na Academia de Düsseldorf, começando por frequentar uma aula elementar regida pelo pintor de história Adolf Maennchen.

Na Academia desenhava com a ajuda de moldes, que deixou, tempos depois, de satisfazer Macke. Com isso seu entusiasmo inicial deu lugar a uma atitude mais céptica em relação a Academia. No outono de 1905 ele se inscreve na Faculdade de Arte Aplicada. Dois anos antes o arquiteto Peter Behrens havia sido nomeado reitor da Faculdade e havia reformado o ensino de acordo com as idéias progressistas do movimento das artes e ofícios britânicos.

Macke gostava de trabalhar com a natureza. Ele era inspirado pelo seu trabalho no Düsseldorfer Schauspielhaus, que tinha a direção de Louise Dumont e Gustav Lindemann desde de 1905. Ele foi apresentado a um círculo de ativistas e de progressistas ligados ao teatro. Todavia, quando lhe ofereceram o lugar de diretor artístico da Associação de Teatro, ele recusou. Embora esse trabalho lhe interessasse, seu desejo de se firmar artista como prevaleceu.
As primeira tentativas artística datam de 1902.

Em janeiro de 1904, ele já tinha enchido o seu primeiro caderno de esboços (revelando a influência de Böcklin), mesmo antes de ingressar na Academia de Düsseldorf. Ele era apaixonado pela captação de imagens do cotidiano. Durante sua curta vida ele encheu um total de 78 cadernos, num total de mais de 3 mil páginas, muitas utilizadas de ambos os lados.

Os trabalhos simbolistas de Max Klinger e naturalistas de Hans Thoma e Wilhelm Leibl tiveram forte influência sobre Macke no início de sua carreira.

Em 1907 ele visita o Kunsthalle e a Sala das Gravuras onde acontece seu primeiro encontro com o Impressionismo Francês. Em junho, faz sua primeira visita a Paris. No outono, entra para o atelie de Lovis Corinth, em Berlim. Em 05 de outubro de 1909, após se apresentar ao Serviço Militar, casa-se com Elisabeth Gerhard e tem a sua lua-de-mel em Paris. No final de outubro, o casal muda-se para Tegernsee.

Em 13 de abril de 1910 nasce seu filho Walter, e em novembro retornam a Bona. Em fevereiro de 1911, muda-se para um novo estúdio nº 88 (hoje 96), da Bornheimer Strasse. No final do verão conhece Paul Klee, depois de visitar a Suíça. Exibe 3 quadros na primeira exposição do Blaue Reiter na Galeria Thannhauser, em Munique.

Na Primavera de 1912 viaja para a Holanda. Exibe mais 16 desenhos na segunda exposição do Blaue Reiter. No final de setembro, viaja para Paris com Franz Marc e visita Robert Delaunay. Em outubro vê pinturas futuristas no Kunstsalon Feldmann, em Colonia.

Em 08 de fevereiro de 1913 nasce seu segundo filho, Wolfgang. Em março visita a exposição de Delaunay, em Colonia. Em outubro, instala-se em Hilterfingen, no Lago de Thun, na Suíça.
No início de abril de 1914, ele viaja para Marselha, via Thun e Berna. A 06 de abril faz a travessia de Marselha para Tunes na companhia de Klee e Moilliet. A 22 de abril, regressa com Moilliet a Hilterfingen, via Palermo e Roma. No início de junho, regressa a Bona.

Em 08 de agosto é chamado para o serviço militar e em 26 de setembro, August Macke é morto em combate.

Fonte http://www.pintoresfamosos.com.br
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August Macke
Pintor
Lady in a Green Jacket (1913)
Lady in a Green Jacket
1913
Türkisches Café (1914)
Türkisches Café
1914
At the Garden Table (1914)
At the Garden Table
1914
Terrace of the country house in St. Germain (1914)
Terrace of the country house in…
1914
Franz Marc
Franz Marc
Paul Klee
Paul Klee
Wassily Kandinsky
Wassily Kandinsky
Ernst Ludwig Kirchner
Ernst Ludwig Kirchner

Anders Zorn

Zorn nasceu e cresceu na fazenda de seus avós em Yvraden, uma aldeia perto da aldeia de Utmeland na paróquia de Mora , Dalarna . Estudou até os doze anos de idade na escola em Mora Strand antes de progredir no outono de 1872 para uma escola secundária secundária em Enköping .

De 1875 a 1880, Zorn estudou na Academia Real de Artes Sueca, em Estocolmo , onde surpreendeu seus professores com seu talento. Membros da sociedade de Estocolmo se aproximaram dele em comissões. Foi assim que Zorn conheceu sua esposa, Emma Lamm, no início de 1881. Sua formação era diferente da de Zorn. Vinda de uma rica família de comerciantes judeus, ela estava interessada em arte e cultura. Zorn viajou  para Londres, Paris, os Bálcãs , Espanha, Itália e Estados Unidos , tornando-se um sucesso internacional como um dos pintores mais aclamados de sua época. Foi principalmente sua habilidade como pintor de retratos que ganhou aclamação internacional baseada principalmente em sua capacidade incisiva de representar o caráter individual de seu modelo. Seus clientes incluíam três presidentes americanos, um dos quais era Grover Cleveland em 1899, bem como sua esposa, juntamente com William H. Taft e Theodore Roosevelt. Aos 29 anos, foi nomeado Chevalier da Legião de Honra na Exposição Universal de Paris de 1889 .

Coleção

A arte de Zorn fez dele rico e ele foi, portanto, capaz de construir uma considerável coleção de arte. Os objetos não foram comprados apenas em seu país natal, mas também durante as muitas viagens que ele fez ao exterior. Em seu testamento conjunto, Anders e Emma Zorn doaram suas propriedades inteiras ao Estado sueco.

Algumas de suas obras mais importantes podem ser vistas no Museu Nacional de Belas Artes (Swedish: Nationalmuseum) em Estocolmo. Entre eles está Midsummer Dance (1897), uma representação de dançarinos à luz da noite de uma celebração rural de véspera de verão . Outros museus com obras importantes de Zorn incluem o Musée d’Orsay, em Paris , o Metropolitan Museum of Art, em Nova York , e o Museum of Fine Arts, em Boston . As coleções Zorn (sueco: Zornsamlingarna) localizadas em Mora e Garberg, Älvdalen, compostas por quatro museus dedicados à vida e obra de Anders Zorn. O principal museu – Zornmuseet – foi projetado por Ragnar Östberg e inaugurado em 1939. São mostradas obras extensivas de Zorn e sua arte coletada por Rembrandt Harmensz van Rijn , “O Mestre Hovingham” (seguidor de Poussin), Bruno Liljefors, Albert Edelfelt e Pehr Hilleström.

Prêmio Bellman (Bellmanpriset) é um prêmio de literatura para “um poeta sueco de destaque”, concedido todos os anos pela Academia Sueca . O prêmio foi estabelecido por Anders Zorn e sua esposa Emma em 1920. 

Zorngården 

Em 1886, Anders Zorn e sua esposa Emma compraram terras perto da igreja de Mora e mudaram para uma casa de campo da fazenda de seu avô materno. Quando Anders e Emma Zorn decidiram voltar para a Suécia depois de vários anos no exterior, começaram a ampliar a casa. Zorngården  foi concluído em 1910.

Zorngården permanece hoje como era na época da morte de Emma Zorn em 1942. É um belo exemplo da casa de um artista desde a virada do século. Com inspiração na arquitetura inglesa e sueca, é hoje um excelente exemplo da liberdade arquitetônica que caracteriza os anos de 1900.

Atelier de Anders Zorn em sua casa, Zorngården em Mora.

A parte principal de Zorngården consiste da casa de Zorn e de um museu com sua arte, mas há dois outros museus que também fazem parte das Coleções Zorn. Gammelgården fica na parte sul de Mora e consiste em cerca de 40 casas de madeira que Zorn comprou para garantir que a velha arte de construir essas casas não fosse esquecida. Gopsmor, o refúgio de Zorn quando estava sob estresse, fica no município de Älvdalen e está aberto  para visitantes apenas em julho. 

Pinturas 

Embora seus primeiros trabalhos fossem frequentemente aquarelas brilhantes e luminosas , em 1887 ele havia mudado firmemente para óleos. Zorn era um artista prolífico. Ele se tornou um sucesso internacional como um dos pintores de retratos mais aclamados de sua época. Seus clientes incluíam três presidentes americanos, nobreza, o rei e a rainha suecos e numerosos membros da alta sociedade. Zorn também pintou retratos de familiares, amigos e auto-retratos. Zorn também é famoso por suas pinturas nuas. Sua predileção por pintar mulheres de corpo inteiro deu origem aos termos kulla ou dalakulla de Zorn , uma mulher solteira ou menina de Dalecarlia , como as mulheres eram chamadas no dialeto local da região que Zorn vivia.

As pinturas têm a liberdade e a energia dos esboços, usando áreas quentes e frias de luz e sombra áreas contrastantes de tons quentes e frios e uma compreensão dos contrastes de cor e das luzes refletidas. O uso realizado do pincel por Zorn permite que as formas e a textura do objeto pintado reflitam e transmitam luz. Além de retratos e nus, Zorn destacou-se em representações realistas de água, bem como cenas retratando a vida e costumes rústicos.

Paleta de Zorn 

Zorn é conhecido por usar uma paleta de cores básica, composta de chumbo branco (floco branco), amarelo ocre, vermelhão e preto marfim. Esta paleta de cores limitada mostra um enorme alcance em termos de mistura de cores. Uma grande variedade de faixas tonais é possível misturar e considerada um desenvolvimento muito importante para a pintura de retratos. No entanto, a paleta de cores também pode ser usada na natureza morta e na pintura de paisagem sob certas circunstâncias. O aspecto mais marcante é que é possível obter uma espécie de cor verde-oliva misturando Marfim Preto e Amarelo Ocre, já que Marfim Preto é azulado por natureza.

No entanto, a noção de que Zorn usou apenas essas quatro cores é falsa. Suas pinturas mostram o uso de outras cores auxiliares sempre que necessário.

Outras obras:

 

 

 

Anders Zorn
Anders Zorn 1908.jpg

Anders Zorn 1908
Nascimento Anders Leonard Zorn 18 de fevereiro de 1860 Mora , Reino Unido da Suécia e Noruega
Morreu 22 de agosto de 1920 (old 60) 
Estocolmo , Suécia
Nacionalidade sueco
Educação Academia Real Sueca de ArtesEstocolmo
Conhecido por Painting 
Sculpture 
Printmaker em gravura
Cônjuge (s) Emma Lamm

Assinatura de Anders Zorn

Anders e Emma Zorn por volta de 1885.

Reveil (Despertar) , a esposa do artista

Sommarnöje , 1886. Pintura mais cara da Suécia sempre; vendido a 26 milhões de coroas suecas em 3 de junho de 2010.

Vinicius de Moraes

 

Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes (1913-1980) foi um poeta e compositor brasileiro. “Garota de Ipanema”, feita em parceria com Antônio Carlos Jobim, é um hino da música popular brasileira. Foi também diplomata e dramaturgo.

Vinicius de Moraes (1913-1980) nasceu no Rio de Janeiro, no dia 19 de outubro de 1913. Filho do funcionário público e poeta Clodoaldo Pereira da Silva e da pianista Lídia Cruz desde cedo já mostrava interesse por poesia. Ingressou no colégio jesuíta Santo Inácio onde fez os estudos secundários. Entrou para o coral da igreja onde desenvolveu suas habilidades musicais. Em 1929, iniciou o curso de Direito da Faculdade Nacional do Rio de Janeiro.

Em 1933, ano de sua formatura, Vinicius publica “O Caminho Para a Distância”. Não exerceu a advocacia. Trabalhou como censor cinematográfico até 1938, quando recebeu uma bolsa de estudos e foi para Londres. Estudou inglês e literatura na Universidade de Oxford. Trabalhou na BBC londrina até 1939.

Várias experiências conjugais marcaram a vida de Vinicius, casou-se nove vezes e teve cinco filhos. Suas esposas foram Beatriz Azevedo, Regina Pederneira, Lila Bôscoli, Maria Lúcia Proença, Nellita de Abreu, Cristina Gurjão, Gesse Gessy, Marta Rodrigues e a última, Gilda Matoso.

Em 1943 é aprovado no concurso para Diplomata. Vai para os Estados Unidos, onde assume o posto de vice-cônsul em Los Angeles. Escreve o livro “Cinco Elegias”. Serviu sucessivamente em Paris, em 1953, em Montevidéu e, novamente, em Paris, em 1963. Volta para o Brasil em 1964. É aposentado compulsoriamente em 1968, pelo Ato Institucional Número Cinco.

De volta ao Brasil, dedica-se à poesia e à música popular brasileira. Fez parcerias musicais com Toquinho, Tom Jobim, Baden Powell, João Gilberto, Francis Hime, Carlos Lyra e Chico Buarque. Entre suas músicas destacam-se: “Garota de Ipanema”, “Gente Humilde”, “Aquarela”, “A Casa”, “Arrastão”, “A Rosa de Hiroshima”, “Berimbau”, “A Tonga da Mironga do Kaburetê”, “Canto de Ossanha”, “Insensatez”, “Eu Sei Que Vou Te Amar” e “Chega de Saudade”.

Compôs a trilha sonora do filme Orfeu Negro, que foi premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em 1961, compõe Rancho das Flores, baseado no tema Jesus, Alegria dos Homens, de Johann Sebastian Bach. Com Edu Lobo, ganha o Primeiro Festival Nacional de Música Popular Brasileira, com a música “Arrastão”.

A parceria com o músico Toquinho foi considerada a mais produtiva. Rendeu músicas importantes como “Aquarela”, “A Casa”, “As Cores de Abril”, “Testamento”, “Maria Vai com as Outras”, “Morena Flor”, “A Rosa Desfolhada”, “Para Viver Um Grande Amor” e “Regra Três”.

É preciso destacar também sua participação em shows e gravações com cantores e compositores importantes como Chico Buarque de Hollanda, Elis Regina, Dorival Caymmi, Maria Creuza, Miúcha e Maria Bethânia. O Álbum Arca de Noé foi lançado em 1980 e teve vários intérpretes, cantando músicas de cunho infantil. Esse Álbum originou um especial para a televisão.

A produção poética de Vinícius passou por duas fases. A primeira é carregada de misticismo e profundamente cristã, como expressa em “O Caminho para a Distância” e em “Forma e Exegese”. A segunda fase vai ao encontro do cotidiano e nela se ressalta a figura feminina e o amor, como em “Ariana, a Mulher”.

Vinícius também se inclina para os grandes temas sociais do seu tempo. O carro chefe é “A Rosa de Hiroshima”. A parábola “O Operário em Construção” alinha-se entre os maiores poemas de denúncia da literatura nacional: “Pensem nas crianças/Mudas telepáticas/Pensem nas mulheres/Rotas alteradas/Pensem nas feridas /Como rosas cálidas”.

Marcus Vinícius de Mello Moraes morreu no Rio de Janeiro, no dia 09 de julho de 1980, devido a problemas decorrentes de uma isquemia cerebral.

Obra de Vinícius de Moraes

O Caminho Para a Distância, poesia, 1933
Forma e Exegese, poesia, 1936
Novos Poemas, poesia, 1938
Cinco Elegias, poesia, 1943
Poemas, Sonetos e Baladas, poesia, 1946
Pátria Minha, poesia, 1949
Orfeu da Conceição, teatro, em versos, 1954
Livro de Sonetos, poesia, 1956
Pobre Menina Rica, teatro, comédia musicada, 1962
O Mergulhador, poesia, 1965
Cordélia e O Peregrino, tearo, em versos, 1965
A Arca de Noé, poesia, 1970
Chacina de Barros Filho, teatro, drama
O Dever e o Haver
Para Uma Menina com uma Flor, poesia
Para Viver um Grande Amor, poesia
Ariana, a Mulher, poesia
Antologia Poética
Novos Poemas II

Soneto de carnaval
Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.
Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.
E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim
De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.
Oxford, 02.1939
A morte
A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.
Rio de Janeiro
Marinha
Na praia de coisas brancas
Abrem-se às ondas cativas
Conchas brancas, coxas brancas
Águas-vivas.
Aos mergulhares do bando
Afloram perspectivas
Redondas, se aglutinando
Volitivas.
E as ondas de pontas roxas
Vão e vêm, verdes e esquivas
Vagabundas, como frouxas
Entre vivas!
Os acrobatas
Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através de milênios de luz.
Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
Com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
Na calma convulsa da ascensão.
Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
Lá onde o infinito
De tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!
Tensos
Pela corda luminosa
Que pende invisível
E cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
Do grande mar de estrelas
Onde dorme a noite
Subamos!
Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
Na fibra do pescoço
Os pés agudos em ponta.
Como no espasmo.
E quando
Lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus
Num último impulso
Libertados do espírito
Despojados da carne
Nós nos possuiremos.
E morreremos
Morreremos alto, imensamente
IMENSAMENTE ALTO.
Paisagem
Subi a alta colina
Para encontrar a tarde
Entre os rios cativos
A sombra sepultava o silêncio.
Assim entrei no pensamento
Da morte minha amiga
Ao pé da grande montanha
Do outro lado do poente.
Como tudo nesse momento
Me pareceu plácido e sem memória
Foi quando de repente uma menina
De vermelho surgiu no vale correndo, correndo…
Canção
Não leves nunca de mim
A filha que tu me deste
A doce, úmida, tranqüila
Filhinha que tu me deste
Deixe-a, que bem me persiga
Seu balbucio celeste.
Não leves; deixa-a comigo
Que bem me persiga, a fim
De que eu não queira comigo
A primogênita em mim
A fria, seca, encruada
Filha que a morte me deu
Que vive dessedentada
Do leite que não é seu
E que de noite me chama
Com a voz mais triste que há
E pra dizer que me ama
E pra chamar-me de pai.
Não deixes nunca partir
A filha que tu me deste
A fim de que eu não prefira
A outra, que é mais agreste
Mas que não parte de mim.
Quatro sonetos de meditação
I
Mas o instante passou. A carne nova
Sente a primeira fibra enrijecer
E o seu sonho infinito de morrer
Passa a caber no berço de uma cova.
Outra carne vírá. A primavera
É carne, o amor é seiva eterna e forte
Quando o ser que viver unir-se à morte
No mundo uma criança nascerá.
Importará jamais por quê? Adiante
O poema é translúcido, e distante
A palavra que vem do pensamento
Sem saudade. Não ter contentamento.
Ser simples como o grão de poesia.
E íntimo como a melancolia.
II
Uma mulher me ama. Se eu me fosse
Talvez ela sentisse o desalento
Da árvore jovem que não ouve o vento
Inconstante e fiel, tardio e doce.
Na sua tarde em flor. Uma mulher
Me ama como a chama ama o silêncio
E o seu amor vitorioso vence
O desejo da morte que me quer.
Uma mulher me ama. Quando o escuro
Do crepúsculo mórbido e maduro
Me leva a face ao gênio dos espelhos
E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos
Vindos de ver a morte em mim divina:
Uma mulher me ama e me ilumina.
III
O efêmero. Ora, um pássaro no vale
Cantou por um momento, outrora, mas
O vale escuta ainda envolto em paz
Para que a voz do pássaro não cale.
E uma fonte futura, hoje primária
No seio da montanha, irromperá
Fatal, da pedra ardente, e levará
À voz a melodia necessária.
O efêmero. E mais tarde, quando antigas
Se fizerem as flores, e as cantigas
A uma nova emoção morrerem, cedo
Quem conhecer o vale e o seu segredo
Nem sequer pensará na fonte, a sós…
Porém o vale há de escutar a voz.
IV
Apavorado acordo, em treva. O luar
É como o espectro do meu sonho em mim
E sem destino, e louco, sou o mar
Patético, sonâmbulo e sem fim.
Desço na noite, envolto em sono; e os braços
Como ímãs, atraio o firmamento
Enquanto os bruxos, velhos e devassos
Assoviam de mim na voz do vento.
Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
Sem dimensão e sem razão me leva
Para o silêncio onde o Silêncio dorme
Enorme. E como o mar dentro da treva
Num constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito.
Oxford, 1938
Soneto de despedida
Uma lua no céu apareceu
Cheia e branca; foi quando, emocionada
A mulher a meu lado estremeceu
E se entregou sem que eu dissesse nada.
Larguei-as pela jovem madrugada
Ambas cheias e brancas e sem véu
Perdida uma, a outra abandonada
Uma nua na terra, outra no céu.
Mas não partira delas; a mais louca
Apaixonou-me o pensamento; dei-o
Feliz – eu de amor pouco e vida pouca
Mas que tinha deixado em meu enleio
Um sorriso de carne em sua boca
Uma gota de leite no seu seio.
Rio de Janeiro, 1940
Apelo
Ah, meu amor não vás embora
Vê a vida como chora
Vê que triste esta canção
Ah, eu te peço não te ausentes
Porque a dor que agora sentes
Só se esquece no perdão
Ah, minha amada, me perdoa
Pois embora ainda te doa
A tristeza que causei
Eu te suplico não destruas
Tantas coisas que são tuas
Por um mal que já paguei
Ah, minha amada, se soubesses
Da tristeza que há nas preces
Que a chorar te faço eu
Se tu soubesses um momento
Todo o arrependimento
Como tudo entristeceu
Se tu soubesses como é triste
Eu saber que tu partiste
Sem sequer dizer adeus
Ah, meu amor, tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus
Soneto da madrugada
Pensar que já vivi à sombra escura
Desse ideal de dor, triste ideal
Que acima das paixões do bem e do mal
Colocava a paixão da criatura!
Pensar que essa paixão, flor de amargura
Foi uma desventura sem igual
Uma incapacidade de ternura
Nunca simples e nunca natural!
Pensar que a vida se houve de tal sorte
Com tal zelo e tão íntimo sentido
Que em mim a vida renasceu da morte!
Hoje me libertei, povo oprimido
E por ti viverei meu ódio forte
Nesse misterioso amor perdido.
Mar
Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.
Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.
E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas.
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.
A um passarinho
Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.
Deixa-te de histórias
Some-te daqui!
Soneto do maior amor
Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.
E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.
Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo
Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.
Oxford, 1938
Epitáfio
Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu a luz ao dia
E apascentou a tarde
O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.
Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que
Possuiu a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.
Oxford, 1939
Soneto de Londres
Que angústia estar sozinho na tristeza
E na prece! que angústia estar sozinho
Imensamente, na inocência! acesa
A noite, em brancas trevas o caminho
Da vida, e a solidão do burburinho
Unindo as almas frias à beleza
Da neve vã; oh, tristemente assim
O sonho, neve pela natureza!
Irremediável, muito irremediável
Tanto como essa torre medieval
Cruel, pura, insensível, inefável
Torre; que angústia estar sozinho! ó alma
Que ideal perfume, que fatal
Torpor te despetala a flor do céu?
Londres, 1939
Soneto de véspera
Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?
Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?
Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou – fria de vida
Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida…
Oxford, 1939
Saudade de Manuel Bandeira
Não foste apenas um segredo
De poesia e de emoção
Foste uma estrela em meu degredo
Poeta, pai! áspero irmão.
Não me abraçaste só no peito
Puseste a mão na minha mão
Eu, pequenino – tu, eleito
Poeta! pai, áspero irmão.
Lúcido, alto e ascético amigo
De triste e claro coração
Que sonhas tanto a sós contigo
Poeta, pai, áspero irmão?
O dia da criação
Macho e fêmea os criou.
Bíblia: Gênese, 1, 27
I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó
(Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas,
imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em
(queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
(e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas
(em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim
(no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
Soneto de separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot,
a caminho da Inglaterra, 09.1938
Fonte: ebiografia e ouvir música.com.br